Pedro, Pedra e Papa

PEDRO, PEDRA E PAPA

Um dos principais artigos de fé do catolicismo romano sustenta que “o papa é o sucessor de Pedro no governo da Igreja Universal de Cristo na terra”. Tal doutrina distintiva partiu da interpretação de uma sentença singular proferida por Jesus: “E eu lhe digo você é Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do Hades [lugar dos mortos] não poderão vencê-la” (Mt 16.18) [1]. pedro, pedra e papa

Antes de adentrar na questão de alta complexidade, é importante ressaltar que um estudo teológico razoável exige cautela; princípios hermenêuticos devem ser observados: não se deve forçar o autor a dizer o que o intérprete deseja ouvir; ponderar que “um texto não pode significar o que nunca significou” e; mensurar a aplicabilidade do ensino no tempo presente. pedro, pedra e papa

Conforme escreveu o exegeta Uwe Wegner[2], não existe abordagem bíblica objetiva e inocente. Todo estudo teológico está condicionado a priori pelo histórico de fé do intérprete, seu lugar social, sua orientação política; condicionantes inevitáveis, mas, que não se constituem empecilhos intransponíveis para uma análise crítica do texto, que busque entender o sentido da função teológica transmitida pelo enunciado em sua origem.

Eis aqui, a proposta do ensaio. pedro, pedra e papa

Pelo olhar católico, as palavras de Jesus em Mt 16.16-19, de acordo com a nota explicativa da Bíblia de Jerusalém[3], “valem não só para a pessoa de Pedro, mas também para os seus sucessores; embora essa consequência não seja explicitamente indicada no texto, ela é legítima”, conclui o autor em nota marginal. pedro, pedra e papa

Já o viés protestante tem se preocupado mais em desconstruir a premissa católica do que, propriamente, compreender e explicar o texto em si, e com isso, parece incorrer num equívoco: a expressão de Jesus “sobre esta pedra” é de fato endereçada a Pedro e não à sua profissão de fé “Tú és o Cristo, o filho do Deus vivo”, ou mesmo, referes-e ao próprio Cristo (Mt 16.16). pedro, pedra e papa

Isso foi investigado por exegetas renomados, como, Karl L. Schmidt [4] e Oscar Cullmann[5], através de estudos exaustivos de naturezas estrutural, lexical e conceitual. O paralelismo “tú és rocha” e “sobre esta rocha”, deixa “claro que Jesus tem em mente a pessoa de Pedro, a quem deu o apelido de pedra/rocha”, sintetizou Cullmann. pedro, pedra e papa

Mas, para Cullmann, buscar base em Mt 16.18 para construir uma sucessão apostólica petrina no governo da igreja universal de Cristo é tão absurdo como ignorar o papel proeminente desempenhado por Pedro para a afirmação da igreja nascente. pedro, pedra e papa

A entrega de “chaves” e as funções de “abrir/fechar” eram símbolos de um poder singular outorgado por Deus a homens específicos com uma missão providencial em Israel, o que era familiar ao povo judaico (Is 22.22)[6]. Trata-se de insígnias que têm seu cumprimento cabal na pessoa de Jesus, como veremos adiante. pedro, pedra e papa

Nos dias de Jesus, os fariseus tinham fechado a porta do Reino de Deus, impedindo o povo de adentrá-lo (Mt 23.13) e Pedro, teria autoridade para abri-la. De igual modo, o colégio apostólico e a própria igreja (Mt 18. 15-18). O poder conferido, porém, seria transitório na vida de Pedro, devido a condição de “forasteiro” e peregrino” de todos nesta terra, conforme Jesus o advertiu (Jo 21.18). pedro, pedra e papa

Ora, o intérprete evangélico ao simplesmente refutar a premissa católica tem se esquecido de explicar a sentença de Jesus desvinculada da interpretação romana; tem deixado de procurar indícios no contexto das Escrituras que auxiliem a desvendar a enigmática sentença. Nessa direção, vejamos algumas passagens: pedro, pedra e papa

1) Pedro foi testemunha-chave da vitória de Jesus sobre a morte (Lc 24.12), eixo estruturante da mensagem cristã, conforme a cristologia paulina: “e, se Cristo não ressuscitou é vazia a nossa pregação, como também é vazia a fé que vocês têm” (1 Co 15.14, Bíblia NVI);

2) Intérprete do milagre do Pentecostes (At 2);

3) Pregador do primeiro sermão da cristandade (At 2);

3) Exerceu uma liderança providente na igreja-mãe, em Jerusalém (At 2 -15);

4) Considerado pelo apóstolo Paulo, ao lado de Tiago e João, uma das colunas-mestras da igreja (Gl. 2.9);

5) Abriu a porta do Reino de Deus para os gentios quando anunciou o evangelho a Cornélio, centurião romano, destacado em Cesaréia (At 10). 

“O fundamento da Igreja nada mais é que o testemunho da Morte e da Ressurreição e da identidade entre o Cristo prometido e o Cristo exaltado. Os apóstolos são o fundamento único e irrepetível no tempo, fundamento sobre o qual é edificada a comunidade (Ef 2.20; At 2.14). E entre os apóstolos Pedro é o primeiro e o mais importante como testemunha ocular da Vida, da Morte e da Ressurreição de Jesus” (Cullmann)[7].

De visão semelhante é Estevan Kirschner[8], tradutor da Nova Versão Internacional da Bíblia, para quem, a autoridade petrina não é absoluta. Kirschner sustenta que ela está subordinada à anuência de Cristo: a autoridade de Pedro e da igreja têm a ver com “o pronunciamento das decisões já tomadas no céu”.

Entendida de outro modo, a honra petrina compromete doutrinas vitais da fé cristã, como a cristologia e a eclesiologia, afinal, em última instância, o poder de ligar/desligar parte mesmo é do céu, não da terra, pois, Cristo é o real possuidor das chaves da morte e do inferno e a porta que ele fecha ninguém abre, e vice-versa (Ap 1.18; 3.7).

Pedro chama Cristo de “a pedra viva” e todo fiel é “pedra viva”, “sacerdócio real” (1 Pe 2. 4,5,9). Ao dirigir-se aos líderes das igrejas do Ponto, Bitínia, Galácia e da Ásia, Pedro situou-se em pé de igualdade com os demais presbíteros ou pastores anciãos das igrejas locais (1 Pe 5.1).

Por fim, a imutabilidade da Bíblia é inquestionável, mas, sua compreensão é um exercício de constante aprendizado e aperfeiçoamento, sem sobrecarga de subjetividade, com perguntas adequadas ao seu conteúdo.

O saber teológico é como o ser humano: imperfeito e inacabado. O livre exame da Bíblia é uma das conquistas da Reforma Protestante (1517), e isso deve ser feito com temor e por amor à verdade, humildade, direito ao erro e certeza de que a mensagem da cruz transcende qualquer discurso tangencial, como o aqui articulado.

Autor: Evaldo Jorge Mendes
Bacharel em Teologia e História:
Professor de História da Igreja FATES-Faculdade Teológica do Espírito Santo na CBN – ES

http://copeb.com.br
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Referências bibliográficas:
[1] O NOVO TESTAMENTO NVI – Nova Versão Internacional da Bíblia. São Paulo: Vida, 1998.
[2] WEGNER, Uwe. Exegese do Novo Testamento – Manual de Metodologia. São Leopolodo: Sinodal, 1998. p. 12.
[3] BÍBLIA DE JERUSALÉM. Edições Paulinas: São Paulo: 1987. p. 1870.
[4] SCHMIDT, Karl, L. Igreja. In:  KITTEL, G. (Org.).  A Igreja do Novo Testamento. São Paulo: ASTE, 1965. p.15-61.
[5] CULLMANN, Oscar. Pedro.  In:  KITTEL, G. (org.). A Igreja do Novo Testamento. São Paulo: ASTE, 1965. p. 297-317.
[6] BÍBLIA SAGRADA – Contendo o Velho e o Novo Testamento. Sociedade Bíblica do Brasil, Barueri: São Paulo, 1995.
[7] CULLMANN. op. cit.
[8] KIRSCHNER, Estevan F. Pedro, pedra e o papa: pressuposições protestantes em torno de Mateus 16. 18. Vox Scripturae 7:2 (dezembrro/Deciembrte de 1997. Revista Teológica Internacional tem sede própria na Faculdade Luterana de Teologia. São Bento do Sul (SC). p. 15-27.

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