Não existe maldição

 

não existe maldição

NÃO EXISTE MALDIÇÃO

Aviso desde já que esse título não é truque de marketing. Pretendo, sim, provar — biblicamente — que maldição não existe. Se você não está disposto a ser contrariado, é melhor não ler. Depois não adianta ficar me “amaldiçoando”.

Aviso, também que este artigo tem um enorme potencial de botar alguns de seus livros mais “queridos” no lixo (mas isso até que pode ser uma coisa boa, não é mesmo?).

Pretendo demonstrar neste estudo:
a) Que o conceito mundano de maldição é diferente do conceito bíblico de maldição.
b) Que muitos, sem saber dessa diferença, interpretam a Bíblia tendo em mente o conceito mundano de maldição.
c) Que o ensinamento bíblico sobre maldição deixa claro que maldição, no conceito mundano, não existe.

1. CONCEITO MUNDANO DE MALDIÇÃO (não existe maldição)
As ideias populares sobre maldição são bem diversificadas, mas, de um modo geral, pensa-se maldição como sendo “uma fórmula cujo objetivo é prejudicar o seu objeto”, uma praga, um feitiço que foi jogado contra uma pessoa, uma família (neste caso, seria uma maldição hereditária) ou uma empresa ou empreendimento que, de alguma forma, veio a se tornar um poder sobrenatural que a inferniza permanentemente, até à ruína, morte, destruição.

2. CONCEITO BÍBLICO DE MALDIÇÃO (não existe maldição)
2.1 – Termos bíblicos traduzidos como “maldição” em português:
‘ãlâh (substantivo): Um juramento, declaração solene, promessa, promessa solene entre dois homens, testemunho em juízo num tribunal (Lv 5.1, Pv 29.24) e diante de Deus (Nm 5.21ss, Jz 17.2, I Rs 8.31, I Sm 14.24, Ne 10.29[30], Ez 16.59, 17.13ss). Pacto solene entre Deus e o seu povo (Dt 29.12[11]) e advertências contra a infidelidade (Dt 29.14-21[13-20], Is 24.6, Jr 23.10, 29.18, 42.18, 44.12 e Dn 9.11).

ta ‘ãlâh (substantivo): Castigo ou punição para juramento quebrado; aparece apenas uma vez na Bíblia, em Lamentações 3.65, aplicado aos inimigos do povo de Deus e é descrito como dureza de coração.

‘ãrar (verbo): Anatematizar (tornar uma pessoa anátema), isto é, banir, expulsar (Gn 3.14,17, Js 9.23, Jz 21.18, I Sm 26.19, II Rs 9.34, Ml 2.2).

A maioria dos dizeres de “maldição” com ‘ãrar encontra-se em uma das três categorias gerais:
1) Declaração de punição (Gn 3.14,17);
2) Proferir de ameaças (Jr 11.3; 17.5, Ml 1.14)
3) Proclamação de leis (Dt 27.15-26, 28.16-19).

qãbab (substantivo): Essa palavra tem a conotação de pronunciar uma fórmula cujo objetivo é prejudicar o seu objeto. Foi a palavra utilizada no incidente envolvendo Balaque, o rei de Moabe, e o mágico Balaão, para que ele “amaldiçoasse” os israelitas (Nm 22.6ss). O rei desejava que o mágico dissesse alguma palavra ou recitasse algum encantamento que “imobilizasse” o seu adversário… Naturalmente isto não tinha efeito automático. 

Nas demais passagens a raiz (qãbab) é empregada sem nenhuma conotação mágica e sem a ideia de pronunciar alguma fórmula. 

qelãlâ (adjetivo): Pessoa desprezível, em condição de inferioridade. Designa o desejar a outrem uma posição inferior (Gn 16.4-5, II Sm 6.22, Sl 109.28).

Obs.: Há outros termos na Bíblia que são traduzidos como “maldição”, mas, em geral, são derivações destes termos.

2.2 – Considerações sobre o que vimos até agora:
2.2.1 – Os termos acima, traduzidos como “maldição”, referem-se a:
  (não existe maldição)
a) Juramentos, declaração solene, promessa, promessa solene entre dois homens, testemunho em juízo num tribunal etc.
b) Ameaça de punição.
c) Castigo ou punição para juramento quebrado.
d) Ato de banimento, expulsão de uma pessoa.
e) Proclamação de leis.
f) Pacto solene entre Deus e o seu povo.

2.2.2. – Quando “maldição” foi utilizada no sentido de uma “fórmula para prejudicar alguém”, não funcionou (Balaão/Baraque)(não existe maldição)

3. ENSINO BÍBLICO SOBRE MALDIÇÃO  (não existe maldição)
3.1 – Amaldiçoar ou jogar “maldição” é apenas falar ou desejar coisas ruins contra alguém.
“Mas nenhum homem pode domar a língua. É um mal que não se pode refrear; está cheia de peçonha mortal. Com ela bendizemos a Deus e Pai, e com ela amaldiçoamos os homens, feitos à semelhança de Deus. De uma mesma boca procede bênção e maldição. Meus irmãos, não convém que isto se faça assim. Porventura deita alguma fonte de um mesmo manancial água doce e água amargosa? Meus irmãos, pode também a figueira produzir azeitonas, ou a videira figos? Assim tampouco pode uma fonte dar água salgada e doce” – Tiago 3:8-12

Bendizer — falar coisas boas — não é o mesmo que “produzir” bênção de verdade.
Assim como amaldiçoar — falar coisas más — não é o mesmo que “produzir” maldição de verdade.
Preste atenção no texto de Tiago: É ESPIRITUALMENTE IMPOSSÍVEL que uma mesma boca possa produzir  bênção e maldição de verdade, pois de um mesmo manancial não pode sair ora água doce, ora água amargosa, nem a figueira pode produzir azeitona ou a videira figos. Assim, tampouco pode uma fonte dar água salgada e doce.

Bendizer é tão-somente dizer ou desejar o bem para alguém.
Amaldiçoar é tão-somente dizer ou desejar o mal para alguém.
De uma mesma boca pode, sim, proceder bênção (palavras boas) e maldição (palavras ruins) contra alguém (não convém que seja assim, mas pode acontecer), no entanto, tratam-se apenas de palavras — e não bênção e maldição de verdade —, pois isso é espiritualmente impossível.

3.2 – Não existe ninguém que fala (amaldiçoa) “e assim acontece”. (não existe maldição)
É bom que se lembre que a Bíblia não contradiz a Bíblia e, para quem deseja de fato interpretá-la corretamente, relembro um dos princípios de interpretação mais valiosos que diz que: “versículos mais claros iluminam versículos mais difíceis”.

Leia atentamente este versículo:
“Quem é aquele que diz, e assim acontece, quando o Senhor o não mande? Porventura da boca do Altíssimo não sai tanto o mal como o bem?” – Lamentações 3:37-39a.

Entendeu o texto? A Bíblia está dizendo que não existe ninguém que fala “e assim acontece”, a não ser quando Deus manda falar. O profeta está dizendo que benção e maldição (coisas boas ou coisas ruins) vêm “DA BOCA DO ALTÍSSIMO”, isto é, bênção e maldição não vêm da boca de homem algum.

3.3 – Uma palavra de “maldição” só se cumpre SE QUEM MANDOU FALAR FOI O PRÓPRIO DEUS
. (não existe maldição)
Neste caso, poderíamos até dizer que não se trata de uma maldição, mas, sim, de uma palavra profética, isto é, não se trata da palavra de um homem que se cumpriu, mas de uma palavra de Deus, como é o caso da maldição de Malaquias 3.9, por exemplo. 
(não existe maldição)

4 – CONCLUSÃO  (não existe maldição)
a) Na Bíblia não há um único texto que valida o termo “maldição” no sentido popular (mundano) de feitiço, praga ou coisa parecida, com exceção do incidente envolvendo Balaque e Balaão que, como sabemos, não funcionou.
b) Os termos bíblicos traduzidos para o português como “maldição” se referem a frases, desejos, castigos ou punição/multa por um contrato quebrado, banimento ou desprezo.
c) A Bíblia diz que não existe ninguém que fala “e assim acontece”, pois bênção e maldição procedem exclusivamente da boca de Deus.
d) A Bíblia diz que uma palavra de “maldição” (um aviso de que coisas ruins vão acontecer) dita por um profeta só acontece se foi o próprio Deus quem o mandou falar (como é o caso da maldição do Malaquias 3.9, por exemplo).


E quanto aos demais textos que tanto usam por aí para “provar” essa história de “maldição”? 
Bem, esse estudo é a linha-mestra sobre “maldição”. Os demais textos devem ser revistos e precisam se encaixar nesta linha de pensamento. Ou traçar uma outra linha-mestra que não despreze os textos aqui apresentados.

Fora isso, corremos o risco de ferir a integridade do ensino bíblico a tal ponto de acabarmos acreditando em tolices e crendices.

Com o devido respeito.
/Pr Ronaldo Franco

Tema: Não existe maldição.
Data: 27/09/2015


Referência bibliográfica: Dicionário Internacional de Teologia do Antigo Testamento, Editora Vida Nova. Termos pesquisados: 94, 168, 285, 1978 e 2028
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