Estudos Especiais em I Coríntios
preparados pelo Rev Silas Matos Pinto
revsilasmatos@yahoo.com.br
CONDENADO OU PERDOADO
1
Coríntios 2.15,16 – “Porém o homem espiritual julga todas as coisas, mas
ele mesmo não é julgado por ninguém. Pois quem conheceu a mente do Senhor, que o
possa instruir? Nós, porém, temos a mente de Cristo”.
A
agenda dos fóruns está lotada. Diariamente são julgados centenas de casos. Os
crimes variam entre os mais comuns aos mais hediondos. Os réus variam entre
jovens e idosos; mulheres e homens; entre os arrependidos e os que demonstram
prazer no mal que praticaram. Todos estes criminosos se colocam diante de um
juiz e de um corpo de jurados para receber sua sentença. Seu crime é exposto e
os advogados de defesa e acusação apresentam suas argumentações a respeito do
crime cometido. A defesa procura de todas as formas provar a inocência do réu ou
ao menos atenuar a possível pena. O advogado de acusação procura valorizar cada
ato, por mais simples que seja, para fazer com que os jurados e o juiz possam
ficar horrorizados com o acontecido e assim sejam duros no seu julgamento final.
Todas as testemunhas são convidadas a depor e no seu depoimento são conclamadas
a falar a verdade e os advogados tentam extrair delas tudo o que for possível
para condenar ou justificar o réu. No final de todo esse trabalho o juiz ouve o
parecer dos jurados e julga: culpado ou inocente.
É possível que haja um crime sendo praticado nesse momento. As estatísticas
trazem um resultado assustador. Mesmo em tempo de paz as mortes continuam a
acontecer. Às vezes morre mais gente em época de paz do que na guerra. As
pessoas se matam constantemente.
Mas os crimes não são apenas de ordem física. Existem formas de matar uma pessoa
sem tirar a sua vida. Muitos maridos estão sendo feridos mortalmente por suas
esposas com palavras impensadas. Do mesmo modo, muitas mulheres também têm sido
feridas na alma pelas palavras e atitudes de seus maridos. Filhos são
desestimulados por causa da violência da língua. Às vezes uma palavra dita de
forma impensada produz muito mais dor e tristeza do que uma facada ou um tiro no
peito. É por isso que muitas famílias estão se desfacelando diariamente. Os seus
membros não estão se preocupando com o sentimento do próximo e assim ferem
mortalmente aquele a quem prometeram amar e cuidar por toda a vida.
Outro tipo de crime tem sido cometido e creio que com uma frequência ainda
maior. É o crime do pecado. O pecado é um crime cometido contra Deus. O pecado é
a quebra da lei de Deus. Qualquer atitude que contrarie a vontade de Deus é
pecado e, consequentemente, é um crime.
O homem começou a cometer esse crime quando ainda eram apenas um casal, morando
no mais belo lugar já habitado pelos homens. Nesse paraíso os nossos pais
cometeram um crime terrível que trouxe conseqüências para eles, para os seus
descendentes e para toda a criação. O crime do homem foi punido por Deus com o
pior dos castigos.
Todo crime é passível de punição. O que configura um crime é a quebra de uma
lei. Se não houvesse nenhuma lei não haveria crime. Mas as leis existem e a sua
quebra exige punição. O homem foi punido por causa do seu crime. A condenação
prevista era a morte, sendo assim, a punição de Adão e Eva e de toda a raça
humana que peca, como e pior do que Adão, não poderia ser outra a não ser a
morte.
A morte entrou no mundo com o pecado e o homem passou a morrer. O homem que foi
criado para viver eternamente, de repente, começou a morrer fisicamente. Os
cabelos brancos e as rugas; o cansaço e a fraqueza são as marcas dessa
degeneração que leva à morte. Mas a pior morte do homem foi a espiritual. Ele
passou a descrer de Deus, a não entender as suas manifestações, a ser totalmente
ignorante nas coisas espirituais e consequentemente se afastou de Deus. A
condenação do homem afetou sua existência física e espiritual.
A condenação por causa do pecado trouxe conseqüências imediatas, sendo aplicadas
nessa vida presente, e deixou o homem sob a expectativa de uma nova condenação,
essa eterna, a ser recebida no julgamento final. O homem condenado aqui espera o
julgamento final, que vai ratificar a condenação terrena ou vai liberá-lo da
condenação eterna. Os pecadores condenados nunca mais terão outra oportunidade
de mudar a sentença. Os pecadores perdoadas viverão ao lado de Cristo por toda a
eternidade.
No julgamento terreno o réu se livra da pena com álibis que comprovem sua
inocência ou com a apresentação do verdadeiro culpado. No caso do julgamento
divino, como se livrar da condenação eterna? Se todos são pecadores e
conscientes de que merecem todo o castigo por terem quebrado a lei de Deus por
livre vontade, como esperar alguma misericórdia? Será que existe alguma chance
para os pecadores?
É esse o nosso tema: A MISERICÓRDIA DE DEUS NOS GARANTE O PERDÃO.
Perdoar é justificar. Justificar é absolver da culpa. É declarar que o culpado
não é mais culpado. É fazer do culpado um inocente declarando-o justo. É dizer
que o condenado não mais sofrerá sua merecida pena porque sua culpa foi
retirada. O condenado, após a justificação, se torna um liberto como qualquer
outro, sem nada que conste contra a sua moral. Sua culpa foi retirada e não há
mais nada que o condene.
A Bíblia ensina que o crente foi justificado por Jesus Cristo. Com sua morte ele
tomou o lugar e a culpa dos pecadores. Ele sofreu o castigo no lugar dos
pecadores que desejou salvar. Isso nos leva a crer que no momento do juiz
(Jesus) bater o martelo os pecadores perdoados não serão declarados culpados e
condenados ao sofrimento eterno, pelo contrário, ele dirá que estamos limpos
como a neve. Puros como se nunca tivéssemos pecado contra ele. E por causa dessa
justificação nós seremos inseridos nos céus para lá vivermos por toda a
eternidade.
A justificação, que garante a liberdade, não é produzida por qualquer ato de
obediência ou por méritos humanos. A misericórdia de Deus é que garantirá aos
pecadores perdoados a certeza de poder entrar no seu santo repouso. A
misericórdia de Deus permitirá que homens pecadores e merecedores de todo o
castigo previsto em sua lei possam habitar com ele nos céus.
O versículo base de nosso estudo levantou o tema e ele mesmo nos dá a
argumentação necessária para entendermos essas questões. A primeira delas é que
QUEM FOI PERDOADO POR CRISTO NÃO PODE SER CONDENADO POR HOMENS.
O versículo disse: “Porém o homem espiritual julga todas as coisas,
mas ele mesmo não é julgado por ninguém”.
Os meios de comunicação vez por outra anunciam algum crime provocado por
alguém que buscou fazer justiça com as próprias mãos. A justiça de nosso país é
lentíssima. Os processos se arrastam por anos e quando o criminoso chega a ser
julgado ninguém lembra mais do crime cometido. Por causa dessa lentidão e muitas
vezes por causa da impunidade e falhas na aplicação da justiça é que aparecem os
conhecidos justiceiros. Eles são homens que não acreditam na justiça e por conta
disto promovem o que para eles é a justiça.
Os justiceiros cerceiam a liberdade da pessoa que cometeu algum tipo de delito,
transporta-o para um lugar deserto e ali o espanca, maltrata e depois de muita
violência o mata. Isso aconteceu no Rio de Janeiro a poucos meses. Policiais
levaram um grupo de jovens infratores para o mato e ali os executaram. Também há
poucos dias um homem, funcionário público, atirou em sua mulher e num professor
universitário, matando-o e deixando sua mulher gravemente ferida, por desconfiar
que os dois estavam tendo um caso amoroso.
A questão a ser discutida é: Quem tem autoridade para julgar. Quem é que pode
dizer se uma pessoa é culpada ou inocente. Quem é que pode aplicar um castigo
sobre uma pessoa culpada. Vimos diariamente policiais abusarem de sua autoridade
espancando, maltratando e envergonhando pessoas nas ruas por julgá-las culpadas.
Esse não é seu papel. O papel da polícia é recolher os suspeitos e uma vez tendo
certeza de sua culpa devem entregá-los para que a justiça aplique a pena que
lhes cabe. Qualquer ato de violência aplicado pela polícia ou por quem quer que
seja, sobre uma pessoa que ainda não foi julgada pela autoridade competente, é
crime.
Se as pessoas não aceitarem a autoridade do juiz elas não darão ouvidos ao seu
julgamento e mesmo que o juiz tenha declaro alguém inocente eles farão a sua
própria justiça sobre o inocentado, fazendo-o culpado. Eles aplicarão a pena que
o juiz não aplicou. Nesse caso o justiceiro toma para si a autoridade que
compete ao juiz.
A Bíblia cita um caso claro de justiceiros. Os judeus pegaram uma mulher que
estava se prostituindo e a trouxeram até Jesus. Eles já a haviam condenado, pois
todos já estavam com pedras nas mãos para apedrejá-la, mas esperavam que Jesus
ratificasse sua decisão. Eles não trouxeram os dois adúlteros para serem
julgados. Julgaram que só a mulher era culpada, como se adultério pudesse ser
cometido apenas por uma pessoa. Jesus mostrou que eles não tinham autoridade
para condená-la e muito menos caráter impoluto para exigir qualquer tipo de
punição do pecado alheio. Os algozes daquela mulher acabaram justificando-a nos
seus próprios pecados. Eles não a perdoaram por ela não ser culpada. Eles não a
condenaram por serem todos eles culpados como ela.
O pecador não deve ser justificado por que todos somos pecadores. Se assim
julgássemos ninguém nunca seria condenado, pois todos cometemos algum tipo de
delito em algum tempo de nossa vida. Se pensássemos assim diríamos que o pecado
de um justifica o pecado de outro e a realidade não é assim. Todo pecado é crime
contra Deus e deve ser tratado com a aplicação das penas instituídas por Deus e
não passando as mãos na cabeça do culpado para esconder o próprio erro.
O pecado tem de ser punido porque ele ofende a Deus, assim como o crime tem de
ser punido porque o criminoso desobedeceu a uma lei instituída. Até mesmo as
autoridades instituídas, de algum modo, são culpadas. Elas não podem deixar de
julgar simplesmente por que um dia foram culpadas de algum delito. Elas devem
julgar e condenar o culpado por que o culpado se condenou ao quebrar uma lei
instituída para o país. Se o juiz é réu ele também deve ser julgado e condenado
se for o caso.
Deus perdoa o pecador. Ele perdoa alguns tipos de criminosos e pecadores que
qualquer um de nós os mandaria imediatamente para a forca. Deus perdoa pessoas
que cometeram os piores tipos de crimes e pecados e os faz tão puros como o
branco mais branco. O sangue de Jesus, vertido na cruz, é capaz de purificar
qualquer pecador, por pior que seja o seu pecado aos nossos olhos. E se Deus
decidiu perdoar, quem somos nós para condenar uma pessoa dessas?
Zaqueu é um caso típico da justificação divina. Ele foi justificado por Jesus e
ninguém mais poderia condená-lo. Ele era um homem desonesto e odiado por seus
compatriotas. Ele roubava ao coletar os impostos instituídos por Roma. Mas um
dia Jesus foi ao seu encontro e se convidou para jantar em sua casa. Os
seguidores de Jesus e a multidão se escandalizaram disso. Eles não podiam
aceitar que uma pessoa como Jesus pudesse se assentar à mesa com um homem
pecador como aquele. Zaqueu não chamou Jesus para ir à sua casa. O convite foi
feito por Jesus. Jesus queria que aquele pecador se tornasse um justo. Ele não
estava preocupado com a sua vida pecaminosa do passado. Não se importou com os
crimes cometidos no passado. Jesus não se preocupou em saber quem era Zaqueu e o
que ele havia feito, mas em quem ele se tornaria após esse encontro.
Jesus quis justificar o pecador Zaqueu e tratá-lo com qualquer outro homem
honrado da sociedade. Quem naquela multidão poderia recriminar a atitude de
Cristo ou mesmo condenar as atitudes de Zaqueu? A partir do encontro com Jesus
Zaqueu se converteu. O Espírito Santo entrou em seu coração. Naquele momento
Zaqueu estava salvo. Deus não mais o condenaria. A salvação da condenação no
juízo de Deus foi declarada por Jesus a Zaqueu naquele momento. Se Jesus perdoou
ninguém poderá condenar.
Creio que o texto mais claro a respeito da Justificação e da impossibilidade de
um homem condenar àquele a quem Jesus justificou é Romanos 2.1-8. Faremos um
comentário a seu respeito com o uso do texto.
O texto é iniciado com um alerta ao justiceiro: “Portanto és indesculpável,
ó homem, quando julgas, a quem quer que seja; porque, no que julgas a
outro, a ti mesmo te condenas; pois praticas as próprias coisas que condenas”.
Paulo deixa bem claro que nenhum homem tem a autoridade e a capacidade para
julgar a outro pecador. Para esse julgamento Deus levantou aqueles a quem
instituiu como autoridade em Sua igreja. Quando alguém se faz dono da justiça
atrai para si o juízo de Deus, pois exige do outro a pureza que ele mesmo não
vivencia.
Já falei sobre os insatisfeitos com a justiça que procuram fazer justiça com as
próprias mãos. O profeta Jonas foi um desses. Ele resolveu não cumprir o seu
dever profético por crer que Deus seria misericordioso com quem ele desejava ver
destruído. Se ficasse calado e não pregasse sobre o juízo de Deus, Deus
destruiria a cidade de Nínive e isso agradaria a Jonas. Desse modo Paulo alerta
para essa verdade. Ele diz: “Bem sabemos que o juízo de Deus é segundo a
verdade contra os que praticam tais coisas”. Fazer justiça com as próprias
mãos, no nosso caso, é acusar severamente um irmão que caiu em pecado e tratá-lo
com desprezo exigindo que seja expulso da igreja e do nosso meio, é o mesmo que
descrer dos métodos usados por Deus para fazer justiça contra alguém que ele
mesmo ao julgar, condenou ou absolveu como lhe aprouve. É, também, o mesmo que
dizer que Deus não sabe ser justo e você que julgou e condenou, é mais justo do
que Deus.
Jesus fez um alerta aos judeus quanto ao julgamento alheio. Ele mandou que
antes de condenar o próximo deveriam retirar a trave do próprio olho. Eles
estavam sempre prontos a condenar os outros, mas nunca se preocupavam com os
seus próprios erros. Aqui Paulo disse: Tu, ó homem, que condenas os que
praticam tais coisas e fazes as mesmas, pensas que te livrarás do juízo de Deus?
Ninguém escapará impune do julgamento de Deus. Ninguém pode se esconder de
seus olhos. Ele não é como a justiça humana que demora e falha em seu
julgamento. Todos os culpados são julgados corretamente.
Ao julgar e condenar o próximo a pessoa que se julga justa e irrepreensível se
esquece de algo essencial para o cristão: “Ou desprezas a riqueza da sua
bondade, e tolerância, e longanimidade, ignorando que a bondade de Deus é que te
conduz ao arrependimento?” Se somos justos e andamos em correção é porque
descobrimos o erro praticado e procuramos nos corrigir. Só que esse
reconhecimento do erro não vem de nós mesmos. É Deus quem, por misericórdia,
conduz o homem ao arrependimento. Foi assim conosco e é também com o pecador que
condenamos com nossas atitudes, esquecendo-nos de que a bondade de Deus pode
levá-lo também ao arrependimento, como aconteceu conosco.
O legalista é o homem que acha que ele é o melhor executor da lei. Ele é o
santo, puro, irrepreensível, dono da moral e dos bons costumes. Todos são
errados e ele está sempre correto e puro. Ele deve julgar e condenar por ser bom
em si mesmo. O seu coração duro não permite misericórdia. Quer ver todos os que
praticaram erros serem humilhados publicamente e desse ato de humilhação alheia
retira um enorme prazer. Para esses, Paulo disse: “Mas, segundo a tua
dureza de coração impenitente, acumulas contra ti mesmo ira para o dia da
ira e da revelação do justo juízo de Deus, que retribuirá a cada um segundo o
seu procedimento: A vida eterna aos que, perseverando em fazer o bem, procuram
glória, honra e incorruptibilidade; mas ira e indignação aos facciosos, que
desobedecem à verdade e obedecem à justiça”. O homem que julga sem
misericórdia acumula contra si mesmo a ira de Deus, e pede para si a mesma falta
de misericórdia na hora de receber a sua pena.
Deus não nos fez juízes. Eles nos incumbiu de sermos proclamadores da sua graça.
A justiça de Deus se revelou em Jesus, que morrendo na cruz perdoou e declarou
justos e livres da ira de Deus todos aqueles que crerem nele como único e
suficiente salvador. A autoridade de julgar cabe a Deus e a quem ele instituir
para esse cargo. Não cabe a nós dizer que alguém vai para o inferno, e sim
dizer-lhe que se arrepender de seus pecados e aceitar a justiça de Deus em Jesus
Cristo será salvo e terá o céu.
Dissemos que quem foi perdoado por Cristo não pode ser condenado por homens.
Falamos isso baseado no que Paulo escreveu: “Porém o homem espiritual julga
todas as coisas, mas ele mesmo não é julgado por ninguém”. Homem espiritual
é aquele que deixou de ser guiado pelo espírito do mundo e passou a ser guiado
pelo Espírito Santo de Deus. Esse homem espiritual é capacitado pelo Espírito
Santo a julgar o que é certo e o que é errado. Ele é capaz de discernir entre o
bem e o mal e por isso julga todas as coisas. O Espírito Santo o capacita
a dizer se algo é certo ou errado e a agir corretamente.
Mas Paulo disse que “ele não é julgado por ninguém”. Nenhum homem merece
a salvação. Todos são pecadores e merecedores do castigo eterno. Mas Deus
resolveu, entre os condenados, escolher aqueles a quem desejou salvar. A esses
ele aplicou a justiça de Jesus.
Esses homens não foram obedientes, puros e santos como Deus exige, mas Deus
imputou, ou seja, determinou que toda a obediência e justiça e
santidade vivida e praticada por Jesus Cristo fossem aplicadas na vida desses
homens que ele quis salvar. Se o próprio Deus que sabia de toda a sujeira da
alma desses homens desejou e permitiu que estivessem ao seu lado, quem é o homem
para dizer que ele está errado?
Se Deus disse que o crente é santo, então o crente é o mais puro de todos os
homens. Se Deus declarou a inocência do culpado, o culpado passou a ser inocente
e ninguém pode dizer o contrário. A justificação que Cristo imputou na vida do
crente faz dele, diante de Deus, o mais puro, santo e perfeito dos homens.
Nosso segundo ponto de argumentação é que
AS
RAZÕES DO PERDÃO DO HOMEM ESTÃO EM DEUS.
Diz o
versículo:
“Pois
quem conheceu a mente do Senhor, que o possa instruir?”
Dona Maria é um
mulher muito bonita. Ela tem os olhos mais belos que alguém poderia ter. Seus
cabelos brilham ao sol e ofuscam a beleza das outras mulheres. Ao passar na rua
ela chama a atenção de todos. O seu marido é um homem pacato e simples. É
desprovido de beleza e de bens materiais. Todos gostam muito dele, mas o
criticam por amar muito sua esposa. Dona Maria sai muito de casa e fica horas na
rua. As pessoas não sabem para onde ela vai, mas a julgam, pois sempre sai de
casa arrumada e cheirosa. Todos desconfiam dela, menos o marido. Isto é
imperdoável para os vizinhos. Como pode um homem tão bom conviver assim com essa
aí? Será que ele não vê que ela o trai? E apesar de tudo, ele ainda é muito
feliz com ela.
Você deve conhecer algum caso parecido. Todos se perguntam sobre o por quê de a
pessoa que deveria estar ofendida não está. É que o marido ama. A causa da falta
de desconfiança está no coração do marido e não nas atitudes da esposa. A pessoa
que ama olha apenas para as boas qualidades, para o seu desejo de tê-la sempre
por perto e com isto as desconfianças desaparecem. Se ele decidiu confiar, então
não tem motivos para desconfiar. Se ele quer vê-la como a mais pura das mulheres
nenhum vizinho pode recriminá-lo. Ninguém tem essa autoridade sobre sua vida.
Deus agiu assim com o pecador. A diferença reside no fato de ele não ter deixado
o crime do pecador impune. Deus puniu o pecador quando matou o seu único filho
na cruz. Ele mostrou toda a sua indignação contra o pecado dos homens em cada
chicotada que aqueles guardas deram em Jesus. Ele mostrou sua ira contra o
pecado em cada martelada que foi dada nos pregos que furaram as mãos e os pés de
Jesus. Sua revolta contra o pecado se manifestou na zombaria do povo, no
escárnio que ele fez Jesus suportar, na lança que perfurou os pulmões de Cristo.
Cada ato de violência sofrido por Jesus manifesta toda a indignação e a ira de
Deus contra todos os atos pecaminosos dos homens a quem ele desejou salvar.
Sendo assim ele não deixou o pecado impune, mas o puniu da forma mais cruel que
alguém poderia ser punido.
Depois de punir os homens com seus pecados, matando cruelmente Jesus Cristo lá
na cruz, Deus passou a olhar para os seus amados e amadas como se eles nunca
tivessem pecado. Deus passou a olhar para os seus escolhidos como se fôssemos os
homens mais santos e puros que já habitaram nesse mundo. Mas a causa dessa
pureza não está em nós. Na realidade não somos puros e muito menos perfeitos.
Estamos muito longe do ideal de perfeição exigido por Deus. A causa do perdão de
Deus não está em nós, está nele mesmo.
Uma senhora foi traída por seu marido que lhe fora fiel nos vários anos de
casamento. Eles sempre se deram muito bem. Nunca faltou nada de um para o outro.
O carinho que aquece o coração, as carícias que despertam o desejo, o sorriso
que alegra o dia, o diálogo que divide as angústias e as alegrias e todos os
itens necessárias para a manutenção do casamento feliz sempre estiveram
presentes. Mas de repente ele caiu em pecado e trouxe muita tristeza para o seu
lar. A dor da traição lhe foi pior que a maior das violências. Todas as juras de
amor caíram por terra. Todos os carinhos que ele lhe fez foram lembrados com
revolta. Todos os beijos de amor passaram a ter gosto de fel. E depois da
descoberta da traição ele chegou chorando e disse: Me perdoa!?
Ai! O perdão é caríssimo! Caríssimo para quem recebe e é muito mais caro para
quem oferece. O pedido de perdão revela o reconhecimento do erro. Mostra que o
infrator mudaria a situação se pudesse voltar no tempo. Ele agiria diferente se
pudesse. Mas não pode. A única coisa que o marido traidor pode fazer é implorar
pelo perdão e esperar que um dia seja perdoado.
Passar por cima de todas as feridas que a traição produziu é muito dolorido.
Cada lembrança é uma punhalada. Todas as palavras, gestos e olhares em direção
ao marido traidor fará com que a esposa traída vivencie de novo toda dor. Mas
ela está diante de uma decisão: Perdoar ou não? Haveria motivos para perdoar?
A maior questão a respeito do perdão é encontrar justificativas que levem ao
perdão. O marido sabia da dor que ia causar? Sim! Ele sabia que isso é errado?
Sim! Ele sabia que ia ferir a esposa e os filhos? Sim! Todas as perguntas
levarão a total consciência do traidor. Ele sabia de todo mal que estava
causando e mesmo assim preferiu a traição. Como encontrar justificativa para
perdoar? A minha resposta é que não existe justificativa no traidor que leve ao
perdão.
Ninguém merece perdão. Nenhuma justificativa dada por quem praticou o erro fará
a pessoa perdoar. A única forma de perdoar é olhar para o perdão que a própria
esposa recebeu de Deus. Se a esposa for uma cristã que reconhece que o seu
pecado a levaria à condenação da morte e mesmo assim foi perdoada, ela perdoará.
Somente o cristão tem motivos para perdoar. Sendo assim posso afirmar que não
existe razão no culpado que possa convencer a pessoa traída a perdoá-lo. A razão
para o perdão estará na morte de Cristo que nos traz perdão.
Deus é a pessoa traída. Foi ele quem deu tudo o que o homem necessitava e mesmo
assim o homem o traiu. Não há nenhuma justificativa que o homem possa dar para
conseguir convencer Deus de que é inocente. Deus proporcionou ao homem tudo o
que ele necessita para viver em paz. Deu sua companhia e amizade e mesmo assim o
homem preferiu trair àquele que mais o amou. O homem traiu e trai consciente.
Essa consciência do que é errado retira do homem qualquer possibilidade de se
justificar diante de Deus.
Nessa nossa argumentação dissemos que
as
razões do perdão do homem estão no próprio Deus.
Dissemos isto baseados no
que Paulo disse:
“Pois
quem conheceu a mente do Senhor, que o possa instruir?”.
Quem foi que aconselhou
Deus a perdoar o homem? Por acaso havia alguém junto dele dizendo o que fazer e
a quem perdoar? A resposta é: Não.
Não havia, não há e não haverá qualquer razão no homem que convença Deus a
perdoá-lo. Nenhum homem foi, é ou será puro como Deus exige que o homem seja. Se
somos perdoados por Deus é porque ele tem razões dentro do seu próprio coração
que o motiva a perdoar. Ele decidiu perdoar e a motivação para a sua decisão
está dentro dele.
Do mesmo modo como a mulher traída não encontrou e nem encontrará justificativas
para o marido traidor, Deus não encontrou e nem encontrará justificativas nos
atos humanos para dar o seu perdão. No caso da mulher traída ela pode buscar as
razões para perdoar o marido observando o perdão que ela mesma recebeu de Deus e
assim pode imitar Deus e perdoar o seu marido. Mas Deus não foi perdoado por
ninguém e nem precisa ser porque ele não pecou e não deve nada a ninguém.
A razão do perdão recebido pelo homem está no amor incondicional de Deus. Deus
não impôs condições ao homem para perdoar, pois se assim fosse, nenhum homem
seria perdoado. O homem é incapaz de ser totalmente fiel. Por mais que tenta ser
fiel ele acaba sendo infiel em algum aspecto. Deus promoveu o modo e a razão
para o perdão do homem. Ele mandou o seu filho para viver corretamente como ele
exige que os homens vivam. Também ofereceu o seu filho inocente e puro na cruz
para que ele, como homem perfeito, pudesse pagar o preço do pecado de outros
homens. Agindo assim o próprio Deus criou as condições necessárias para perdoar
os pecadores.
Nosso terceiro ponto de argumentação é que
O
PERDÃO RECEBIDO MUDA A VIDA DO PECADOR PERDOADO.
Paulo disse
assim:
“Nós,
porém, temos a mente de Cristo”.
Em Romanos
8.31-34, diz:
“Que
diremos, pois, à vista destas coisas? Se Deus é por nós, quem será contra nós?
Aquele que não poupou o seu próprio filho, antes, por todos nós o entregou,
porventura não nos dará graciosamente com ele todas as coisas? Quem intentará
acusação contra os eleitos de Deus? É Deus quem os justifica. Quem os condenará?
É Cristo Jesus quem morreu, ou antes, quem ressuscitou, o qual está a direita de
Deus e também intercede por nos”.
Ao ler um texto como esse, sabendo que ele se refere a nós que aceitamos a
Cristo como nosso Salvador, nos sentimos tranqüilos e seguros. Sabemos que tudo
o que tinha de ser feito para nos garantir a entrada no céu já foi feito por
Jesus. Sabemos também que Deus não está mais irado contra nós, porque os nossos
pecados foram condenados ao serem postos sobre Jesus que os sofreu em nosso
lugar.
Vimos também que ninguém mais pode nos acusar ou nos condenar, pois como eleitos
de Deus somos justos porque o próprio Cristo nos justificou. O que mais nos
importa? Ficaremos angustiados com o que pessoas possam falar a nosso respeito?
Se o próprio Deus desejou estar próximo dos escolhidos e nos declarou limpos de
nossas faltas, então não precisamos mais nos preocupar com o que dizem as
pessoas. E além de tudo, ele ainda continua a interceder por nós.
E aí? Como fico? Vou andar de qualquer modo porque a salvação está garantida?
Como diz Romanos 6.15:
“E
daí? Havemos de pecar porque não estamos debaixo da lei e sim da graça? De modo
nenhum!” A pessoa
que é consciente do perdão recebido em Jesus Cristo, sabendo que ele levou sobre
si todos os nossos pecados e essa tarefa lhe foi penosa e muito dolorosa, foge
de todo caminho errado, buscando a santidade, mesmo que imperfeitamente, para,
de algum modo, mostrar sua gratidão por todo o bem recebido de Deus. O homem
perdoado por Deus sofre uma transformação radical em sua vida.
Zaqueu se encontrou com Jesus. Esse encontro mudou a sua vida. O perdão recebido
redirecionou os seus passos. Ele abandonou suas antigas práticas desonestas e
passou a ser um homem justo. Ele passou a se preocupar com o bem estar dos
pobres e necessitados. Então Jesus disse: “Hoje
veio salvação a esta casa”.
A salvação oferecida gratuitamente mudou para sempre a vida de Zaqueu.
Jesus não pronunciou, à mulher pecadora, palavras de repreensão por seus atos
pecaminosos. Ele levou todos que estavam ao seu redor a reconhecer que pecaram,
inclusive a pecadora. Depois de se conscientizarem da realidade de que são
pecadores, os algozes da pecadora foram embora, então Jesus olhou para aquela
mulher e lhe disse:
“Vai e
não peques mais”.
Ela se tornou uma discípula.
Essa mesma admoestação foi feita por Jesus a um coxo que fora curado por ele.
Ele esperava um milagre impossível e Jesus o realizou em sua vida. Depois de
curado do problema físico, Jesus lhe disse:
“Vai e
não peques mais, para que não te suceda coisa pior”
(João 5.14).
Em todos esses casos houve uma mudança de vida. É por isso que dissemos em nossa
argumentação que
o
perdão recebido muda a vida do cristão.
Paulo disse:
“Nós,
porém, temos a mente de Cristo”.
Essa é a maior
mudança: Nós passamos a ter a mente de Cristo. Antes nossa mente era a mente
dominada pelo espírito desse mundo. Éramos cegos e mortos espiritualmente. Agora
não!
O cristão, depois de perceber o perdão recebido, passa a agir como o Mestre.
Lembram-se da razão que levou a mulher a perdoar o marido? Ela passou a ter a
mente de Cristo, e como Cristo foi capaz de perdoar pessoas injustificáveis, a
mulher também pôde basear sua ação no amor de Deus e conseguiu perdoá-lo.
Em Mateus 5.1-11, encontramos as bem-aventuranças. Elas são a lista mais difícil
de ser vivida pelos homens. Somente o cristão verdadeiro é que consegue agir
como um bem-aventurado. Ser manso contra quem o oprime; ser humilde quando
humilhado; ser misericordioso quando quem agiu contra nós não merece perdão; ser
limpo de coração num mundo impuro, para deixar-se agir como Jesus agiria em seu
lugar; aceitar as perseguições com alegria por ser identificado como servo do
Senhor. Essas bem-aventuranças são a base da vida do cristão e ele somente
viverá como lhe é exigido se tiver a mente de Cristo.
A pessoa que reconhece o perdão recebido de Deus passa a olhar para o próximo de
modo diferente. Ao irmão da igreja que caiu no erro não se olha com desprezo,
mas com compaixão. Procura levantá-lo e não derrubá-lo. Às pessoas que estão
perdidas, o cristão que tem a mente de Cristo, olha com preocupação e
responsabilidade por sua salvação. Essa mudança de atitude é gerada pelo
reconhecimento do perdão recebido e por um coração agradecido por tudo o que
Deus realizou em sua vida.
Para concluir relembraremos alguns pontos principais. Iniciamos o nosso estudo
falando a respeito dos vários crimes cometidos e da dificuldade que os
criminosos têm de se livrar da pena. Somente um ato de misericórdia é que os
livraria. Nós somos os criminosos que foram alvo da misericórdia de Deus.
Esse foi o tema desse nosso estudo:
A
MISERICÓRDIA DE DEUS NOS GARANTE O PERDÃO.
Para confirmar o que afirmamos no tema, usamos os versículos 15 e 16, que nos
levaram às seguintes argumentações:
1. QUEM
FOI PERDOADO POR CRISTO NÃO PODE SER CONDENADO POR HOMENS.
“Porém o
homem espiritual julga todas as coisas, mas ele mesmo não é julgado por
ninguém”.
2.
AS
RAZÕES DO PERDÃO DO HOMEM ESTÃO EM DEUS.
“Pois quem
conheceu a mente do Senhor, que o possa instruir?”
3.O
PERDÃO RECEBIDO MUDA A VIDA DO PECADOR PERDOADO.
“Nós, porém,
temos a mente de Cristo”.
Se você já é um privilegiado por ter a
mente de Cristo, saiba que ninguém mais pode acusá-lo. Deus garantiu o seu
perdão em Jesus Cristo. Se você tem consciência disto, então procure viver de
modo digno do Senhor de sua vida. Deixe-se ser guiado pelo Espírito Santo e você
verá a transformação que ele fará em sua vida.
As convicções do autor não expressam, necessariamente, a nossa opinião.